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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Luz, câmera, Borrão!: "We Need to Talk About Kevin"

Sinopse: A mãe de um jovem responsável por um massacre tenta lidar, ao mesmo tempo, com a dor e com a sensação de culpa pelas ações de seu filho.


Tempo de Duração: 112 min

Com: Tilda Swinton, Ezra Miller e John C. Rilley

Direção: Lynne Ramsay


Eu não li o livro no qual o filme se baseia, então não será uma crítica comparativa nem nada do tipo. No entanto, a quem interessar possa, minha mãe leu e disse que é um dos poucos book-based movies que não a decepcionaram, se não o único, e na minha humilde opinião faz um ótimo papel em incentivar a leitura do livro em si (já separei aqui e lerei ainda nas férias, entrou na fila).
Pertubador. Se eu tivesse que escolher uma única palavra que definisse “Precisamos falar sobre o Kevin”, que estreia na próxima semana (mas que já esteve por aqui durante o Festival do Rio), sem dúvida alguma seria esta. Várias outras se encaixam, mas nenhuma delas parece tão perfeita, tão adequada para o filme, que traz tensão até mesmo nas cenas mais “alegres”. Não se deixe enganar pela música do trailer (que eu adorei, aliás, “Everyday”, de Buddy Holly), esse não é um daqueles filmes pra assistir numa tarde livre, como passatempo. Ele entretém, claro, mas é bem pesado, do tipo que te prende do início ao fim e não dá brecha alguma pra respirar, pra relaxar. Eu saí do cinema ainda um pouco paralisada, sem conseguir comentar muita coisa. Leva um tempinho pro filme “assentar”. Um dos poucos dirigidos por Lynne Ramsay (que só tem outros 2 longas e 4 curtas em sua lista), garantiu à mesma uma louvável indicação ao Palma de Ouro do Festival de Cannes.
Começando pelo coadjuvante, mas essencial, John C. Reily, meu eterno Mr. Cellophane (assistam “Chicago”!): faz exatamente o que se espera de um ator como ele num papel como este, e embora seja compreensível pela história, a vontade é que estivesse em cena por mais tempo.
Tilda Swinton (ou Katherine Matilda Swinton, hehe) está maravilhosa. Muito provavelmente estará entre as indicadas ao Oscar, merecidamente (e, muito provavelmente também, perderá a estatueta para Meryl Streep em “A Dama de Ferro”
que eu ainda não assisti assim como aconteceu no Globo de Ouro). Fisicamente ela tem uma fraqueza absurda, parece um passarinho com as asas cortadas, e não dá pra entender como consegue andar sem se quebrar toda. Na minha cabeça, tenho me referido a Tilda como “A dama que tem buracos negros no lugar dos olhos” desde “O Curioso Caso de Benjamin Button”, primeira vez em que percebi o quão diferentes são os mesmos. Aqui, eles transbordam ora dor, ora culpa, ora raiva de um jeito claro e forte que não consigo ver em outras atrizes (ou não reparo mesmo, só tenho isso com os olhos da Feiticeira Branca). Além disso, não consigo acreditar que ela tenha 51 anos, só faz ficar mais elegante com o tempo, ao invés de envelhecer.
Falemos agora (trocadilho horroroso intended) sobre Ezra Miller, o jovem ator que interpreta Kevin em sua fase adolescente (by the way, todos os três Kevins foram muito bem escolhidos) e foi indicado a um Critics Choice de melhor jovem ator/atriz. Se eu o visse num filme sobre gente possuída, espíritos etc, teria medo do rosto forte, marcado, do olhar raivoso e dos dentes extremamente amarelos. Imaginem, então, num filme de gente “normal”. Espero que não seja um daqueles que faz um filmaço e some depois (e espero que seus outros filmes sejam tão bons quanto esse, claro, do contrário de nada adianta).
“We need to talk about Kevin” faz pensar em muitas coisas – de onde vem a maldade (já nasce na gente ou é preciso necessariamente um ambiente, um fator, um gatilho, pra que a mesma se desenvolva?) e qual seu limite? Existe arrependimento sincero? Existe castigo maior pra uma mãe em tal situação que a culpa que ela própria carrega? É mais fácil seguir a vida culpando outros por algo pelo qual não têm culpa, mas o que fazer, como reagir, quando não se tem ninguém mais a quem culpar? Será que meus filhos serão assim? (Esse é um medo que vem durante o filme, mas não fica, juro, o meu já passou.) Será que eu seria forte o suficiente pra aguentar tudo isso? –, mas não deixe de jeito nenhum que essa avalanche de perguntas sem resposta te impeça de apreciar esse ótimo filme. Cada segundo vale a pena.




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